domingo, 7 de junho de 2009

AS APARÊNCIAS ENGANAM

Se ele deixasse os elogios subirem à cabeça, com certeza seria arrogante. Metido à besta. Por onde anda, quase sempre conquista fãs ou, no mínino, esgueiradas de olhos. Em relação a outros, ele não é do tipo bonitão, forte, que impõe respeito. Ao contrário. É baixinho – até demais -, magrinho e meio orelhudo. Mas tem uns olhos... que olhos. Dentro daquelas duas amêndoas doces cabem toda a alegria do mundo. Vivazes, brilhantes e suaves ao mesmo tempo. Tristeza com ele tem fim, sim senhor. A qualquer hora do dia ou da noite tem sempre uma disposição invejável para um passeio de carro, para uma brincadeira, para uma boa caminhada ou para dividir tudo aquilo que engorda. Quem entra na dele tem de ter um fôlego de leão. Ele tem. Manhoso como um gato, adora um cafuné. Se for de mulher, melhor ainda. Mas se for de homem, também é bem-vindo, pois não conhece preconceito para um bom carinho. Da mesma forma que encara dias alegres, ele também sabe respeitar os momentos de dor e fraqueza. Se percebe que o momento não é de muito papo, fica na sua, apenas oferecendo a solidariedade do seu forte olhar. Com ele não tem mau tempo. Dorminhoco como só um bicho preguiça pode ser, quando vencido pelo cansaço, é capaz de dormir em qualquer lugar não importando se é em um edredom macio ou se é em um canto qualquer do chão. Como nem tudo é perfeito, ele é ariano. Birrento, teimoso e persistente, consegue tirar do sério até um monge tibetano. Mas por outro lado, não guarda mágoas. Por mais que alguém brigue com ele ou o esqueça por um bom tempo, ele releva o acontecido e, mais humildezinho que São Francisco, ele mesmo procura quem o maltratou e volta às boas como se nada tivesse acontecido. Desde que o conheci, tenho aprendido a dar valor a uma boa e desinteressada amizade. Durante todo esse tempo, acredito que também tenho ensinado muitas coisas a ele. Só não consegui ensiná-lo ainda a não lamber minha cara toda vez que chego do trabalho, nem latir tão alto quando alguém se aproxima da nossa casa.


sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

20 coisas que me irritam muito no cinema

1. Pagar de R$ 8 a R$ 10 a meia-entrada, quando eu sei que os camelôs já têm cópias do filme por até metade do preço.
2. Ter vontade de ir ao cinema (depois de passar um super tempo para decidir onde eu gostaria de ir) e lembrar das filas quilométricas à porta de qualquer cinema sábado à noite.
3. Casais que marcam o primeiro encontro no cinema e ficam naquele climinha de sedução pra lá de manjado.
4. Caras nerds que sempre fazem a mesma piada na fila do cinema: “é, então, parece que o cara morre mesmo no final do filme !”
5. Casais que correm para sentar nas últimas poltronas e ficam se pegando durante o filme todo. E ainda saem com aquela cara de “tá tudo normal” como se ninguém soubesse o que eles estavam fazendo.
6. Casais que protagonizam cenas clichês na porta do cinema. “Linda, o que você quer ver?”/ “Ah, mô, escolhe você...”/ “Vamos de Homem de Ferro?”/ “Ah, não! Eu quero Sex and the City!” Porra, então por que pediu pro cara escolher?
7. Atendentes mau-humorados. Só porque eu estou me divertindo sábado à noite e ele, trabalhando, não significa que ele tenha de ser tão grosso.
8. Extorsão no preço da pipoca e do refrigerante. Monopólio é a faceta mais cruel do capitalismo.
9. Crianças no cinema. Em qualquer situação já é duro de aturá-las. Numa sala escura e ao lado de outras similares, beira o insuportável.
10. Grupinhos de adolescentes meninas, que estão saindo sozinhas pela primeira vez, e ficam falando alto para chamar a atenção de...
11. Grupinhos de adolescentes meninos, que se acham muito malandros, e ficam andando com canudinho na boca (essa moda já passou?). Aí eles começam guerrinhas de pipocas (???) entre si e as menininhas morrem de rir. Um horror.
12. Pessoas que não entendem as piadas de verdade nos filmes e riem de qualquer coisa, menos das piadas em si (aconteceu nos Simpsons; e olha que as piadas nem eram tão complexas assim!)13. Pessoas que querem mostrar que são muito à vontade em qualquer lugar e tiram o sapato e ainda o apóiam o pé na cadeira da frente!
14. Cinema com poltronas que os encostos de braço não levantam.
15. Pessoas que fazem piqueniques dentro da sala durante o filme. E ficam mastigando pipoca de um modo sonoro alto muito chato.
16. Pessoas que sentam na sua frente mesmo quando há um mar de poltronas livres pelo cinema.
17. Pessoas que ficam olhando feio para você só porque você precisou fazer um comentário sobre alguma cena bizarra.
18. Pessoas que fazem comentários sobre absolutamente tuuuuudo. Até das propagandas que passam antes dos trailers.
19. Em filmes baseados em seriados, como Sexy and the City, mulheres que levam o namorado à sessão e ficam querendo explicar um enredo de cinco anos em cinco minutos para o cara. (Detalhe: ele queria ter ido assistir Indiana Jones.)
20. Pessoas que saem correndo na hora que a sessão termina e formam filas nos corredores e portas de saída.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Transporte urbano: comilanças a bordo

Adoro piqueniques, principalmente de manhã e à noite. São esses os horários em que pego ônibus para ir e voltar do trabalho. Hoje, por exemplo, do meu lado direito sentou-se um garotão que chupava um sorvete com tanta voracidade e vontade que a situação já estava ficando pornográfica. No outro banco, uma mocinha arrancava de uma sacolinha do Compre Bem uma série de acepipes. Era impressionante o que cabia ali dentro, parecia mais uma cartola de mágico. Primeiro, ela tirou um pacote de salgadinhos, daqueles que parecem isopor amarelo e com cheiro mais ou menos parecido com uma meia úmida esquecida dentro de um tênis.

Em questões de segundos, ela devorou o pacote de Fediditos – facilmente ela ganharia o concurso “Se vira nos 30” do Faustão. Depois de esfregar as mãos besuntadas de óleo nas calças (sim, ela era pobre, mas era limpinha), ela saca da cartola, digo, da sacolinha um pacote de bolachas com recheio e sabor de massinha de modelar. Primeiro ela separava as partes do sanduichinho de bolacha, a seguir começava a lamber o recheio e, depois de tamanho deleite, começava a raspar o recheio embebido em baba com os dentes da arcada inferior. Uma cena inesquecível, digna de figurar nos livros de etiqueta da Glorinha Kalil. Depois das bolachas, ela se refestelou com um iogurte de beber e, para a sobremesa ou higiene dental, um Bubaloo sabor melancia. Nesse ínterim, o garotão do sorvete já havia jogado civilizadamente o papel e o palito pela janela e, a cada milionésimo de segundo, atirava um Halls ultra mega ubber ardido goela abaixo. A cada expirada dele, eu tinha impressão de que seria incinerada.

Claro que para quem acabou de sair de casa só um com cafezinho morno no estômago isso poderia parecer uma sessão de tortura do antigo DOI-CODI. Mas poderia ser pior. Poderia entrar porta adentro uma orientalzinha de cabelos moicanos esverdeados nas pontas e roxo na raiz, com 3.500 argolas na orelha e um piercing que atravessa toda a sobrancelha dando a impressão de que ela acaba de sair de uma luta medieval e ainda está com a lança desferida pelo inimigo pendurada no olho. Bem, essa menina deve ser cliente preferencial do Habibs. Ela costuma pegar o ônibus na Berrini por volta das 8 horas da noite – portanto, evitem a área. Depois de se desentalar da catraca, equilibrando um pacote todo engordurado em uma das mãos, ela senta-se confortavelmente ao seu lado e abre uma fumegante caixinha com aproximadamente 15 dúzias de esfihas e 6 de limões cortados em florzinha e então, meu amigo, aí começa a lambança.

Ao infeliz passageiro sentado ao lado resta apenas a esperança de ter à mão um prendedor de roupas para poder sufocar as narinas e uma cartela de Dramim para acalmar o estômago. É por essas e outras que sugiro aos próximos candidatos à prefeitura de São Paulo que parem de brigar pela autoria ou melhoria ou vantagens extras do bilhete único. Pensem à frente! Ponham em suas propostas de governo a instalação de pias dentro dos ônibus para que depois do convescote a população tenha onde lavar as mãos e escovar os dentes. Beneficiem os usuários dos coletivos com pacotes de guardanapos e/ou fio-dental (poderia ser optativo) toda vez que forem recarregar o bilhete. Se a candidata for mulher, sugira panos de copa delicadamente bordados com o logotipo da empresa de ônibus juntinho ao brasão da prefeitura. Para os passageiros que só consomem sólidos, seria muito bem-vindo um bebedor com água gelada e fria. Instalem exaustores nos ônibus. Só, pelo amor de Deus, não nos cobrem os 10% do garçom.